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Foi em um presídio federal de segurança máxima que dois dos maiores traficantes do Amazonas decidiram fundar a ‘Família do Norte’

Joana Queiroz e Monica Prestes Manaus (AM)

A maior operação da Polícia Federal já realizada contra a facção Família do Norte (FDN) tem como um dos objetos a transferência das 17 principais lideranças da organização criminosa para presídios federais de segurança máxima. Ironicamente, o mesmo lugar onde surgiu a ideia de unir grupos traficantes rivais e criar o que viria a ser a maior facção criminosa do Amazonas, com “braços” no Rio de Janeiro, Ceará, Rio Grande do Norte, Roraima, Peru, Bolívia, Venezuela e Colômbia, e responsável pelo “quase” monopólio de uma das maiores rotas de tráfico de cocaína do mundo: a “Solimões” – trajeto entre a tríplice fronteira (Brasil, Peru e Colômbia) e Manaus.

É que, de acordo com as investigações da Polícia Federal, foi após uma temporada em presídios federais de segurança máxima que José Roberto Fernandes Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa” – que controlava o tráfico no bairro da Zona Oeste -, e Gelson Carnaúba, o “G” – que dominava parte da Zona Sul de Manaus -, decidiram trocar a concorrência por uma aliança.

Da união deles nasceu a Família do Norte, após os dois terem contato com criminosos de organizações que atuam em outros Estados, como o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, aponta a PF. “Após passarem uma temporada cumprindo pena em presídios federais, retornaram para Manaus determinados (ou orientados) a se estruturarem como uma facção criminosa, nos moldes do PCC e do CV”, revela o relatório da operação.

Segundo a PF, com o tempo e a “experiência” de Carnaúba e Zé Roberto, a FDN desenvolveu um “modus operandi” próprio para transporte de grandes cargas de drogas, que inclui a utilização de embarcações, armas de grosso calibre e adoção de medidas de contra inteligência.

‘Diferencial’

A estrutura da facção, que possui mais de 200 mil criminosos cadastrados em um sistema informatizado e com senhas – que reúne, ainda, o monitoramento de todas as ruas dos bairros onde a FDN atua – chamou a atenção da Polícia Federal, que destaca a “não submissão” da facção amazonense ao CV ou ao PCC, como acontece em outros Estados.

Esse “diferencial”, inclusive, é motivo de “orgulho” para Zé Roberto, como mostram interceptações de conversas dele com o traficante João Pinto Carioca, o “João Branco”, feitas pela PF durante as investigações. “Qual é outra facção do Brasil depois do PCC e CV? Todos que são bandido conhece a FDN. E respeita. Porque outras facções de outros estados dependem ‘dos caras’. E nós não, nós corremos atrás. E aqui no Estado tudo é FDN. Outros estados é PCC e CV, aqui é só nós”, diz Zé Roberto, que ainda se vangloria do fato de, segundo ele, a FDN ser a única facção criminosa a prestar apoio jurídico, inclusive, a traficantes presos em presídios federais. “Onde que tu vê outra facção, sem ser CV e PCC, que ajuda nas federais? Que contratou nove advogados pra dar apoio nas cadeias? Aqui mesmo, a FDN, mano”, finaliza.

Aliança firmada em Campo Grande

Foi também em um presídio federal, desta vez o de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, que a Família do Norte (FDN) firmou uma aliança com a facção criminosa Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, ampliando suas ações na região Sudeste do País.

Segundo o relatório da Polícia Federal (PF), o acordo entre as duas facções se deu por meio de Gelson Carnaúba e “Caçula”, um dos líderes da facção carioca que, assim como o traficante amazonense, estava preso no local.

O episódio foi, inclusive, relatado por Zé Roberto a Alan Cartimário, o “Nanico”, por mensagem de texto, no dia 3 de outubro deste ano. “Foi fechada uma aliança em Campo Grande. Quando Gelson (Carnaúba) estava lá”, escreveu Zé Roberto.

Ainda de acordo com a PF, as mensagens interceptadas evidenciam que a FDN possui uma forte ligação com o CV e uma espécie de rixa com os membros do PCC, o que teria motivado, inclusive, o planejamento do assassinato de todos os membros da organização criminosa paulista que estejam presos em Manaus. E, segundo a PF, pelo menos três das principais lideranças do PCC foram assassinadas degoladas ou enforcadas, dentro dos presídios, por integrantes da FDN.

Análise: David Spencer, Sociólogo

“No estado do Amazonas, a ascensão da Família do Norte, organização criminosa associada ao tráfico de drogas e a várias outras atividades clandestinas e ilícitas, e cujas atividades se baseiam no uso da violência e da intimidação, bem como no poder econômico de seus agentes, está associada à incapacidade do Estado em colocar em prática uma política pública de segurança que tenha como foco a desarticulação das organizações criminosas e suas lideranças. Esta política requer necessariamente o fortalecimento da inteligência policial e investigativa, bem como a viabilização de um pacto político e interinstitucional entre as polícias, os gestores dos presídios, o ministério público e o poder judiciário a fim de atingir com eficácia e precisão a estrutura organizacional e econômica desta organização criminosa. A intervenção da polícia federal no estado do Amazonas, com sua expertise, isto é, com sua capacidade técnica, investigativa e de inteligência, é um grande exemplo do quanto as agências policiais locais precisam ser fortalecidas enquanto aparelho de Estado responsável pela ordem pública democrática e proteção social da população amazonense”.

Recrutamento de novos ‘associados’

As unidades prisionais do Amazonas são o principal reduto de recrutamento de criminosos para a Família do Norte (FDN), aponta a Polícia Federal. Relatório da operação La Muralla revela que a “seleção” dos criminosos começa assim que um detento ingressa no sistema prisional do Estado.

Os “xerifes” dos presídios, “nomeados” pelo comando da facção, são responsáveis por fazer uma entrevista com os presos que chegam, especialmente os que respondem por tráfico. Nessa entrevista, os presos são obrigados a revelar todos detalhes como para quem trabalham, fornecedores, distribuidores, destinatários finais e rotas, e obrigados a se filiar e seguir o estatuto da FDN, fornecendo o entorpecente exclusivamente para a facção, sob pena de serem “sumariamente executados”, revela o relatório da PF.

A outra forma de se associar à FDN era sendo indicado por um dos conselheiros ao comando. Se aprovado, o novo membro recebe uma senha e passa a ser subordinado à equipe do conselheiro que o indicou.

Dessa forma, a FDN conseguiu chegar a 200 mil cadastrados, eliminando os rivais, a quem Zé Roberto faz ameaças, em uma conversa com João Branco. “Aqui no Amazonas quem manda é a FDN. Que nós somos o CRIME do estado do Amazonas”, diz a mensagem.

Amadorismo

Se a amplitude da FDN impressinou a PF, o amadorismo deles também facilitou o trabalho policial: não há aparente preocupação com códigos na comunicação. Prova disso é que, em quatro meses, a PF interceptou mais de 800 ligações e mensagens trocadas entre as lideranças da FDN.

Banco de dados e financiamento

O banco de dados da organização criminosa reúne ainda o mapeamento das ruas e bairros onde ela atua. Era controlado pelo então companheiro de cela de Zé Roberto, o técnico em informática Rafael Henrique Canuto de Oliveira, de um computador que ficava dentro do presídio, e pode ser o equipamento apreendido pela PF na última quinta-feira.

Após o cadastro dos criminosos no “sistema” da FDN, o novo membro recebe uma senha, uma espécie de identificação na facção.Com essa senha, o membro realiza operações de compra e venda de drogas nas áreas comandadas pela FDN. Ele também tem a obrigação de cumprir as ordens do chefe da equipe a qual ele pertence e deve contribuir com a “caixinha” da facção, repassando parte do lucro com a venda das drogas, sempre no dia 10 de cada mês. Segundo a PF, a “caixinha” arrecada, em média, R$ 100 mil por mês.

O dinheiro da “caixinha” era usado, entre outras coisas, para bancar o núcleo jurídico da facção, que, segundo Zé Roberto, conta com nove advogados. Seis deles foram presos pela Polícia Federal. Eles são responsáveis por episódios de corrupção que vão de fraudes a negociatas com servidores públicos para beneficiar os integrantes da FDN.

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